La Liga pós-coronavírus: os efeitos da paralisação na classificação da temporada

Como a pausa e as mudanças afetaram cada um dos 20 times que disputaram o Campeonato Epsanhol

Real Madrid comemora 34ª conquista do título da La Liga (Reprodução/La Liga/Betsul)

Depois de (quase) longos 11 meses, a temporada 2019/20 da La Liga chegou ao fim. O Real Madrid, campeão com uma rodada de antecedência, levantou a taça do Espanhol pela 34ª vez a sua história, o Barcelona lamentou um calendário péssimo na voz do próprio Lionel Messi, muitas surpresas apareceram tanto para o lado positivo quanto para o negativo e toda essa reta final da competição pôde ser assistida ao vivo com o Betsul.

E é com um gancho sobre isso que separamos muitos dados para descobrir: quais foram os efeitos da paralisação e da ausência da torcida nas últimas 11 rodadas da La Liga? Assim como fizemos ao final da Bundesliga, vamos ver quem se deu bem, quem se deu mal, como os comportamentos mudaram e o quanto isso impactou no resultado final da temporada mais atípica que já tivemos no futebol europeu nos últimos tempos.

Como a ausência da torcida mudou o aproveitamento dos mandantes?

A Bundesliga já tinha dado indícios de que a falta de torcedores nos estádios alemães havia prejudicado os donos das casas na temporada. Os números da La Liga confirmam essa tendência. Ainda que a queda de rendimento tenha sido menos acentuada na Espanha, ela ocorreu em uma porcentagem até que significativa. 

Antes da paralisação, a La Liga era, nas principais ligas europeias, a competição em que os mandantes mais tinham aproveitamento, com 57%. Nas 11 rodadas finais, sem público, esse rendimento caiu para 50%. Um dos fatores que pode explicar isso é a média de gols marcados pelos times que jogavam em casa neste período.

Com torcida, quem jogava em casa no Espanhol tinha média de 1,54 gol marcado por jogo. Enquanto isso, sofria em média 1,04 gol por partida. No pós-pandemia, a média defensiva se manteve, tendo um aumento irrisório para 1,05. No entanto, a taxa de gols marcados a cada compromisso caiu bem para 1,29.

Os aproveitamentos gerais

Quem melhorou?

O Real Madrid é disparado quem mais melhorou. Vice-líder até a parada, os merengues decolaram nas últimas rodadas, passando de 69,1% para incríveis 93,9% (perderam apenas dois dos 33 pontos disputados). Logo em seguida, aparecem Atlético de Madrid e Villarreal, com aproveitamentos quase 20% superior no período pós-pandemia. 

Além deles, outros seis clubes tiveram alguma melhora significativa na “segunda parte” da temporada na La Liga (confira na imagem abaixo). É legal notar que, diferentemente do que aconteceu na Bundesliga, não se tem um padrão na Espanha. Times de cima, do meio e de baixo da tabela melhoraram e pioraram (na Alemanha a tendência foram as melhores equipes, com exceção ao Bayern, piorarem).

Quem piorou?

Nove times foram piores nas últimas 11 rodadas do que nas primeiras 27. Alguns, é preciso deixar claro, já não vinham bem antes da parada. Portanto, não podemos garantir que ela é a responsável por um baixo aproveitamento. E os dois piores, em termos de variação de desempenho, foram Getafe e Real Sociedad.

Ambos possuíam 56,8% de aproveitamento até março, quando a temporada paralisou. Na retomada, enquanto o Getafe teve apenas 24,2% de aproveitamento, o da Real Sociedad ficou em 30,3%. Em valores absolutos, o retrospecto do Espanyol, que já era o pior, se manteve na lanterna, indo de 24,7% para 15,2%.

E o Barcelona?

Messi e Setién falaram publicamente sobre o desastre que foi a temporada do Barcelona, que saiu da liderança da La Liga, a dois pontos do Real Madrid, para um vice-campeonato a cinco do rival. No entanto, o Barça não piorou nas últimas 11 rodadas da competição. Pelo contrário, teve uma pequena melhora em relação aos pontos conquistados antes da pandemia.

Até março, o aproveitamento catalão era de 71,6%, passando para 72,7% neste final de temporada. O que castigou o Barcelona foi não ter conseguido um desempenho tão positivo quanto o Real Madrid. Até porque, por mais que os merengues tenham sido muito acima da média, ambos os rivais antes da pandemia -- e o Barça depois -- estavam bem abaixo dos padrões para a La Liga.

Diferenças entre os períodos pré e pós-pandemia no desempenho dos clubes (Betsul)

A força das arquibancadas

Como já falamos, o desempenho médio dos mandantes caiu sem a presença do torcedor nos estádios, mas nem para todos os 20 clubes da La Liga jogar em seu estádio sem a força das arquibancadas foi ruim. Pelo contrário, para seis deles a pausa fez muito bem, principalmente para as partidas em casa.

Quem puxa o bonde são os rivais de Madri. O Real encerrou os seus últimos jogos mandando as partidas no Alfredo Di Stéfano, e mesmo não estando habituado ao estádio, conseguiu 100% de aproveitamento (antes, no Santiago Bernabéu, esse número foi 79,5%). O Atlético que já tinha um bom desempenho no Wanda Metropolitano aumentou o rendimento de 69% para 86,7%.

Os demais quatro times vêm da parte intermediária para baixo da tabela de classificação: Osasuna, Real Valladolid, Eibar e Espanyol. 

Quem não sentiu impacto em jogar com ou sem seu torcedor foram Villarreal e Mallorca. O Submarino Amarelo, 4º colocado na tabela pós-pandemia, manteve um aproveitamento próximo (passou de 56,4% para 55,6%), mostrando que foi fora de casa que o time mais evoluiu. 

Dos que pioraram, quem vem disparado em primeiro é a Real Sociedad, com uma queda gigantesca de 66,7% para apenas 27,8%. Mas ele não é o único que rendeu muito menos em casa sem seu torcedor. Alavés, Athletic Bilbao, Granada, Getafe e Barcelona são outras equipes que sofreram com as arquibancadas vazias.

O Barça, aliás, tem muito a lamentar. Antes da paralisação, o aproveitamento no Camp Nou era de 95,2%, o melhor da Espanha e um dos melhores em todo o planeta. O problema maior foi o setor ofensivo, que passou de super produtivo para algo comum.

Com média de 3,21 gols por jogo no Camp Nou, ninguém era mais devastador em seus domínios do que Messi e companhia. No entanto, com apenas 1,4 gol por média na volta pós-coronavírus, o ataque foi pior até do que o do rebaixado Mallorca.

Sobre as potências dos ataques como mandantes sem torcida, quase todos os 20 times da primeira divisão pioraram. Apenas Real Madrid, Granada, Celta de Vigo e Mallorca fizeram mais gols proporcionais em casa quando ela estava vazia.

Quando o assunto é o setor defensivo, sete times conseguiram melhorar significativas nos números médios de gols sofridos por partida. O exemplo mais bem sucedido é do Sevilla, que passou de 1 para 0,17 gol tomado a cada jogo em casa. Real Madrid e Real Valladolid também conseguiram melhorar muito os números da defesa, assim como Atlético de Madrid, Bétis, Eibar e Espanyol.

Barcelona, Getafe, Valencia, Villarreal e Leganés mantiveram média bem próxima. Já Real Sociedad, Granada, Bilbao, Osasuna, Levante, Alavés, Celta e Mallorca pioraram bem.

Como os mandantes mudaram jogando sem torcida (Betsul)

Os visitantes sem pressão

A maioria dos times da La Liga foram melhores fora de casa quando enfrentaram adversários sem torcida contra. Para ser mais exato, 12 deles, incluindo, Real Madrid e Barcelona, que antes da pausa estavam com aproveitamento baixíssimos perto dos padrões de sempre.

O Real saltou de 59,5% para 86,67%, o melhor desempenho pós-pandemia da Espanha. Antes do Barça, vem o Villarreal, que passou de 38,1% para 80%, a 2ª maior variação positiva no quesito. O Barça aparece logo atrás, indo de péssimos 46,2% para 77,78%. Quem mais aprimorou o retrospecto fora de casa foi o Granada, que conseguiu uma histórica classificação à Liga Europa. Antes, o aproveitamento que era de 28,6% pulou para 73,33%.

Aliás, foram vários os times que melhoraram demais como visitantes sem ter que enfrentar a atmosfera de uma torcida contra. Leganés, Levante, Atlético de Madrid e Osasuna, por exemplo, estão nesta mesma situação. 

Do lado das decepções, nenhuma é tão maior do que o Getafe, um time que vinha como surpresa da competição. Com desempenho 37,18% pior nas últimas 11 rodadas, o clube conseguiu só 16,67% dos pontos que disputou fora com os estádios vazios. Ainda assim, conseguiu pontuar mais do que Valencia e Bétis, os dois piores visitantes da fase pós-pandemia (ambos conquistaram somente 5,56% dos pontos disputados).

Assim ficaram os desempenhos dos visitantes com e sem torcida (Betsul)

O que podemos concluir?

Se a pausa da Bundesliga foi melhor para quem estava na parte de baixo da tabela e ruim para quem estava lá em cima, na La Liga a paralisação e a ausência de torcida foi mais “democrática”. 

Assim como era esperado, a maioria dos times aproveitou as arquibancadas vazias para pontuar mais na casa dos adversários. Eles também aumentaram a média de gols marcados e diminuíram a de gols sofridos, de um modo geral. 

Na La Liga, outra conclusão que vimos é: quem conseguiu melhorar o aproveitamento dependeu de uma melhora ou pelo menos manutenção dos números defensivos. O mesmo não podemos dizer de alguns times que mesmo melhorando a produção de gols não converteram isso em maior número de pontos conquistados.